“Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata, no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…

(Guimarães Rosa)

Histórias no ambiente Hospitalar

contar histórias em hospitais junto à Associação Arte Despertar: http://www.artedespertar.org.br/

foto: Stela Handa.

Uma advinha inventada pelo meu filho Martim:

o que é? o que é?

que é quentinha, gostosa, mas às vezes não?

resposta: a vida.

 

 

 

Por meio da associação Arte Despertar, desde 2012 trabalho em diversos hospitais da cidade de São Paulo contando histórias.

Sempre acompanhada de um músico parceiro.

São dois anos e meio de experiência e ainda não sei descrever ao certo "isso" que a gente faz junto. 

Proporcionamos um encontro nosso, de nossos recursos artísticos com pessoas, geralmente frágeis em um ambiente de urgências.

 

Nunca, em meus quatorze anos contando histórias, havia sentido (dessa maneira) o quão amplo, profundo e transformador pode ser o trabalho com esse material ancestral.

 

Depois que comecei a trabalhar nesse ambiente me dei conta de que sou mesmo uma contadora de histórias!

Não que eu seja exímia nisso... nem que eu tenha conseguido um diploma ou subido de cargo...mas eu compreendi algo que faltava em minha formação, descobri agora (por causa desse trabalho) um lugar em que eu posso transitar sem me perder: entendi pela própria experiência de narrar em situações-limite o sentido primordial desse ofício...

 

Um pouco nas palavras da contadora de histórias, poetisa e psicanalista Clarissa Pinkola Estés no livro o dom da história:

 

"Nas duas tradições das quais me origino, hispano-mexicana por nascimento e de imigrantes húngaros por adoção, o relato de uma história é considerado uma prática espiritual básica. Histórias, fábulas, mitos e folclore são aprendidos, elaborados, numerados e conservados da mesma forma que se mantém uma farmacopeia. Uma coleção de histórias culturais, e especialmente de família é considerada tão necessária para uma vida longa e saudável quanto uma alimentação razoável, trabalho e relacionamento razoáveis. A vida de um guardião de histórias é uma combinação de pesquisador, curandeiro, especialista em linguagem simbólica, narrador de histórias, inspirador, interlocutor de Deus e viajante do tempo. "

 

 

Deixo aqui um relato de experiências e depois uma entrevista que está no site da Arte Despertar.

 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

 

8 de setembro, primeiro dia de trabalho na UTI do INCOR.

 

Hoje encontramos a dona Josefa.
A enfermeira  nos disse que dona Josefa não vai sair mais do hospital.

 

Um eufemismo para dizer que ela tem poucos dias de vida.

 

D Josefa tem aquela doença de chagas.
Entramos no quarto e encontramos uma senhorinha de olhar doce e luminoso.

 

Maurício tocou aquela música do Chico “agora eu era Herói e o meu cavalo só falava inglês”.
A música termina assim: “o que é que a vida vai fazer de mim?”

Quando acabamos de cantar, dona Josefa repetiu essa frase com um pesar, uma tomada de consciência sombria, daquelas que não temos a menor pista da resposta...
O QUE É QUE A VIDA VAI FAZER DE MIM?

Que também poderia ser, nesse caso: será que eu vou mesmo morrer? depois que eu morrer, o que vai acontecer?
Quantas vezes eu também já não me perguntei: e agora, meu Deus? O que vai acontecer?

Voltei pra casa pensando nessas grandes perguntas da vida e lembrei dessa história de Nasrudin:

 

Voltando certa vez para casa, á noite, um vizinho encontra o mulá de quatro no chão, como se procurasse algo.
- Perdeu alguma coisa, Nasrudin?
- Oh,sim. – responde ele – Minha chave. Já fiz de tudo e não consigo encontrá-la.
O vizinho, que era uma pessoa generosa, solidária, põe-se também de quatro com Nasrudin, para ajudá-lo a encontrar a chave. Passam-se vinte, trinta minutos, e o vizinho volta a perguntar:
- Tem certeza de que a perdeu aqui?
Responde o mulá:
- Aqui? Não. Eu a perdi lá em cima, perto de minha casa.
- Mas então por que razão nós a estamos procurando aqui? Pode por acaso me esclarecer isso?
E o mulá:
- É que aqui há mais luz. Como queria que eu encontrasse o que quer fosse naquela escuridão toda lá de cima?

 

Na escuridão DE QUEM NÃO SABE que temos que procurar a chave, claro.
No interior da nossa casa, da nossa alma.
No coração deve estar a chave.

Lembro do dia que em uma viagem fiquei no escuro absoluto de uma caverna.
Perdi totalmente a dimensão da lateralidade.
A única certeza que tinha é que estava com os meus pés plantados no chão e que minha cabeça apontava para o céu.
A certeza do eixo vertical... que eu estava em algum lugar entre o céu e a terra e que no centro do meu peito estava o coração, que eu podia ouvir.

 

Dona Josefa me fez lembrar que as grandes perguntas estão alinhadas com esse eixo, esse lugar....Acho é por aí que qualquer ser humano, nas situações limite de absoluta escuridão se orienta.

Contei para ela “a Lenda das Areias” e ela fechou os olhos devagar, recebeu a história com toda abertura do mundo, agradeceu demais e nós fomos embora.

Não consegui deixar de pensar nela e no modo tão profundo que ela se perguntou aquilo que ela não sabe. Mas sabe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                   foto: Stela Handa

 

 

 

E agora a ENTREVISTA, só acessar o link abaixo:

 

entrevista com Cristiana Ceschi.

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

direitos reservados - Cristiana Ceschi

ilustrações do cabeçalho: Beatriz Carvalho